Giordano Bruno: quem foi e por que morreu na fogueira
Giordano Bruno foi um frade dominicano e filósofo italiano, famoso pela arte da memória e por defender um universo infinito, que a Inquisição queimou vivo em Roma a 17 de fevereiro de 1600. Aqui está porquê, contado com as atas de Veneza e de Roma, a sentença e a carta de uma testemunha, lidas em italiano e em latim.
Giordano Bruno (Nola, 1548 - Roma, 1600) foi um frade dominicano e filósofo italiano, conhecido pela arte da memória e por defender que o universo é infinito e tem inumeráveis mundos. A Inquisição romana condenou Bruno como «herege impenitente, pertinaz e obstinado», e Bruno foi queimado vivo no Campo de' Fiori, em Roma, a 17 de fevereiro de 1600.1 Porquê? Por heresias sobretudo teológicas (a Trindade, Cristo, a Virgem, a missa) misturadas com filosofia (os mundos infinitos, a alma do mundo); mas a cópia que se conserva da sentença corta a lista com um «etcétera».1 O artigo anterior contava a arte romana da memória; Bruno foi o seu mestre mais célebre no Renascimento, e caiu nas mãos da Inquisição precisamente por a ensinar. Li as atas em italiano e em latim, na edição de Vincenzo Spampanato (1921).
Quem foi Giordano Bruno?
Nasceu em Nola, perto de Nápoles, com o nome de Filippo, e aos 17 anos entrou nos dominicanos de Nápoles, onde tomou o nome de Giordano.3 Deixou a ordem e passou anos de cidade em cidade. Uma testemunha que assistiu à sentença, o erudito alemão Gaspar Schoppe, resume a viagem assim: Genebra, Lyon, Toulouse, Paris, Londres, Wittenberg, Praga, Helmstedt, Frankfurt e, no fim, Veneza.2
Em Paris tornou-se famoso pela memória. Bruno contou-o ao inquisidor de Veneza em 1592: o rei Henrique III mandou chamá-lo para perguntar «se a memória que tinha e ensinava era natural ou por arte mágica». Bruno fez uma demonstração, e o rei «reconheceu que não era por arte mágica, mas por ciência». Depois veio um livro de memória, De umbris idearum («Sobre as sombras das ideias», 1582), dedicado ao rei, que lhe deu uma cátedra extraordinária.1
Como caiu: uma lição de memória
Em 1591, em Frankfurt, Bruno recebeu duas cartas de um nobre veneziano, Giovanni Mocenigo, que o convidava para Veneza porque queria aprender «a arte da memória e da invenção».1 Bruno foi, e viveu os últimos meses em casa de Mocenigo. Quando quis partir, Mocenigo queixou-se de não ter aprendido tudo o que lhe fora prometido. Na noite de sexta-feira, 22 de maio, segundo a declaração de Bruno, Mocenigo entrou no quarto com um criado e cinco ou seis homens («gondoleiros», pareceram-lhe), que o tiraram da cama e o fecharam num sótão: ficaria livre se continuasse a ensinar «os termos da memória das palavras» e de geometria.1
No dia seguinte, 23 de maio de 1592, Mocenigo denunciou Bruno à Inquisição de Veneza «por obrigação da minha consciência e por ordem do meu confessor». A denúncia é uma lista de frases que diz ter ouvido: que é uma grande blasfémia dizer que o pão se transforma em carne, que Cristo fazia milagres aparentes e era um mago, que não há distinção de pessoas em Deus, que o mundo é eterno e que «há infinitos mundos», que as almas passam de um animal para outro, que a Virgem não pode ter dado à luz, que os frades são todos burros…1
O que Bruno disse em Veneza
Diante do inquisidor, Bruno explicou a sua filosofia com as suas palavras. A 2 de junho de 1592 resumiu a ideia central: «tenho um universo infinito, isto é, efeito da infinita potência divina, porque me parecia coisa indigna da bondade e potência divina que, podendo produzir além deste mundo outro e outros infinitos, produzisse um mundo finito». A Terra é um astro, como a Lua e as estrelas, e todos são mundos «sem número».1
E acrescentou algo que toca de perto o nome deste projeto. Sobre o Espírito Santo, disse que não o tinha podido entender como se deve crer, mas «ao modo pitagórico», como «alma do universo», e citou o livro da Sabedoria («o espírito do Senhor encheu o orbe da terra») e Virgílio.1 É a ideia antiga da alma do mundo, na boca de um frade diante da Inquisição. No dia seguinte perguntaram-lhe pela Ceia das cinzas, um livro seu que «trata do movimento da Terra», e Bruno tirou-lhe importância: a intenção, disse, fora apenas troçar de uns médicos.1
A 30 de julho, a cena muda. Bruno ajoelha-se: «Peço humildemente perdão ao Senhor Deus e a Vossas Senhorias ilustríssimas por todos os erros que cometi». Pede um castigo mais grave em vez de uma humilhação pública que desonre o hábito, e promete reformar a vida. A ata regista que foi preciso dizer-lhe «várias vezes» que se levantasse.1
Por que queimaram Giordano Bruno?
No início de 1593, Veneza entregou Bruno a Roma, onde o processo durou sete anos.3 Spampanato publica alguns decretos romanos desses anos. A 14 de janeiro de 1599, foram lidas a Bruno «oito proposições heréticas recolhidas dos seus livros e do processo» pelo comissário e pelo jesuíta Roberto Belarmino; tinha de decidir se as abjurava. A 4 de fevereiro, o papa mandou dar-lhe quarenta dias.1 A 20 de janeiro de 1600, o geral dos dominicanos informou que Bruno não queria abjurar, «afirmando que nunca tinha proferido proposições heréticas, mas que tinham sido mal extraídas pelos ministros do Santo Ofício». O papa Clemente VIII decidiu que se proferisse a sentença e que Bruno fosse entregue ao braço secular.1
A sentença, datada de terça-feira, 8 de fevereiro, deveria dizer porquê. Mas a cópia conservada só copia a primeira acusação da denúncia de Veneza (que era uma grande blasfémia dizer que o pão se transforma em carne) e continua: «etc. et infra».1 O resto da lista não está lá. Por isso a resposta honesta à pergunta tem duas partes:
- O que dizem os documentos que li: heresias sobre a missa, Cristo, a Trindade e a Virgem; os mundos infinitos e a eternidade do mundo; a transmigração das almas; a magia. É o que contam a denúncia de Mocenigo e a carta de Schoppe.12 As oito proposições não estão nestas atas.
- O que os historiadores reconstroem: um sumário do processo encontrado em 1940, que não li, permitiu ao historiador Luigi Firpo propor uma lista parecida de oito acusações: sete teológicas ou filosóficas e uma de magia e adivinhação, segundo a Wikipédia.3 A historiadora Frances Yates rejeitou a lenda de que Bruno foi queimado pela sua cosmologia, mas também defendeu que os pontos filosóficos eram «inseparáveis» das heresias.3
O que nenhum documento que li diz é que Bruno tenha morrido por defender Copérnico. O movimento da Terra surgiu no interrogatório de Veneza, mas não aparece entre as acusações da denúncia nem da carta de Schoppe.
As últimas palavras de Giordano Bruno
A frase famosa não é exatamente a última. Conta-a Schoppe numa carta de 17 de fevereiro de 1600. Schoppe situa a leitura da sentença no dia 9, tal como um aviso de Roma, que diz que foi na quarta-feira; a cópia oficial diz dia 8. De joelhos, Bruno ouviu a sentença, que o entregava ao governador de Roma «pedindo-lhe que o castigasse com a maior clemência e sem efusão de sangue», e respondeu ameaçador: Maiori forsan cum timore sententiam in me fertis quam ego accipiam, «talvez pronuncieis contra mim esta sentença com mais medo do que eu tenho ao recebê-la».2 A própria sentença pede que a pena seja «sem perigo de morte nem mutilação de membro».1 Era a maneira habitual de entregar alguém à fogueira: o fogo não derrama sangue.
Schoppe não era uma testemunha neutra. Escrevia a um amigo luterano para defender a Inquisição, e termina a carta com troça: Bruno foi-se, diz, contar nos seus mundos inventados como Roma trata os blasfemos.2 Mas esteve na sala, e a sua lista de acusações é o mais parecido com a sentença completa que temos. Entre elas há uma que raramente se cita: que o Espírito Santo não é outra coisa senão a «alma do mundo».2
O que aconteceu na quinta-feira, 17 de fevereiro, contam-no vários papéis mais. A ata da confraria de São João Degolado, que acompanhava os condenados, diz que à «sexta hora da noite» (as horas contavam-se a partir do anoitecer) foram à prisão de Tor di Nona, que sete religiosos tentaram convencer Bruno, e que no Campo de' Fiori, «despido e atado a um poste, foi queimado vivo».1 Um aviso de Roma de 19 de fevereiro acrescenta que o queimaram «com a língua in giova», presa, «pelas feíssimas palavras que dizia», e outro, que dizia morrer «mártir e de boa vontade, e que a sua alma subiria com aquele fumo ao paraíso».1 Schoppe diz que, ao mostrarem-lhe um crucifixo, Bruno o afastou com olhar torvo.2 E um registo de contas de 14 de março anota dois escudos pagos ao bispo de Sídon «por ter degradado frei Giordano Bruno».1
Depois da fogueira
As obras de Bruno entraram no Índice dos livros proibidos em 1603. Em 1889, depois do fim do poder temporal do papa em Roma, ergueu-se a sua estátua no Campo de' Fiori. No ano 2000, no quarto centenário, o cardeal Angelo Sodano chamou à sua morte um «triste episódio», mas defendeu que os inquisidores tinham feito todo o possível para lhe salvar a vida. Tudo isto segundo a Wikipédia.3
Do sótão a Campo de' Fiori
Esta peça percorre os documentos por ordem: cada passo traz a frase original, em italiano ou em latim, a tradução e a página onde está.
Aqui há uma peça interativa que precisa de JavaScript. Percorre onze documentos do caso de Giordano Bruno, com a frase original em italiano ou em latim e a sua tradução: o rei Henrique III e a memória (Paris, por volta de 1582); as cartas de Mocenigo (Frankfurt, 1591); o sótão (Veneza, 22 de maio de 1592); a denúncia (23 de maio de 1592); o universo infinito (2 de junho de 1592); a alma do universo (2 de junho de 1592); o perdão de joelhos (30 de julho de 1592); as oito proposições (14 de janeiro de 1599); a recusa (20 de janeiro de 1600); a sentença e a resposta de Bruno (8 e 9 de fevereiro de 1600); e a fogueira (17 de fevereiro de 1600).
O que não consegui ler
Li na edição de Spampanato as atas de Veneza citadas (a denúncia de 23 de maio de 1592 e as declarações de Bruno de 26 e 30 de maio, 2 e 3 de junho e 30 de julho), os decretos romanos de 1599 e 1600, a sentença, a ata da confraria, os avisos de Roma e a carta de Schoppe; não os cotejei com os manuscritos.12 Não li o sumário do processo descoberto em 1940 e publicado pelo cardeal Giovanni Mercati em 1942, nem Luigi Firpo, nem o livro de Frances Yates Giordano Bruno e a tradição hermética (1964), nem as obras de Bruno, incluindo De umbris idearum. As datas da vida de Bruno, a transferência para Roma e o que veio depois são da Wikipédia.3 As traduções são minhas. Não encontrei explicada a expressão «língua in giova»; traduzo-a por «presa» porque a Wikipédia em inglês a traduz por «aprisionada».
O que fazemos nós com isto
A Anima Mundis tem no nome a ideia que Bruno defendeu diante dos juízes: a alma do mundo. Não a adotamos como doutrina, e o que fazemos não precisa dela. Mas o caso deixa uma lição sobre as palavras: Bruno passou sete anos a dizer que lhe tinham extraído mal as frases, e a cópia da sentença termina num «etcétera». No Observatório contamos frequências e horas, nunca frases de ninguém.
Fontes
- Vincenzo Spampanato, Vita di Giordano Bruno, con documenti editi e inediti, vol. 2 (Messina: Principato, 1921), no archive.org: documentos venezianos I (denúncia, pp. 679-681), VIII (pp. 694-695), IX (p. 701), XI (pp. 709-711), XIII (p. 733) e XVII (pp. 742-746); documentos romanos I-XII (pp. 771-786: decretos, sentença, confraria, avisos e registo de pagamentos). Traduções minhas. ↩
- Gaspar Schoppe, carta a Conrad Rittershausen, Roma, 17 de fevereiro de 1600, texto latino em Spampanato, vol. 2 (1921), pp. 798-802, no archive.org. Traduções minhas. ↩
- «Giordano Bruno», Wikipédia (em inglês), consultada a 7 de outubro de 2026. Fonte secundária: nascimento e nome, transferência para Roma, o sumário de 1940 e as acusações segundo Firpo, Yates, o Índice de 1603, a estátua de 1889 e as declarações de 2000. ↩